Bonjour, mes enfants obscurs
Para começar bem a semana, uma coletânea do
estilo Dark Cabaret – boa para quem quer se
familiarizar com essa estética em particular.
Caros morceguinhos do meu coração congelado pelo frio das trevas
Em primeiro lugar, gostaria de dizer a todos os leitores que estou bem. Leitores de Santa Catarina e talvez de outros estados podem ter acompanhado as notícias sobre as chuvas e as quedas de barreira em todo o estado, mas principalmente na cidade de Anitápolis (onde moro, atualmente), que chegou a ficar isolada. Ainda estamos passando por algumas dificuldades, é verdade, mas nada de aterrador, que se compare ao que aconteceu em outros anos no Vale do Itajaí, por exemplo. A comunicação entre o centro da cidade e as comunidades do interior ainda é precária, de forma que as férias escolares foram suspensas. Apesar disso, estamos todos bem, já que não há a menor possibilidade de uma cheia do rio atingir a minha casa. Continua chovendo, barreiras e pedras ainda caem nas estradas, mas tenho acesso doméstico à internet…
Vamos às novidades, então:
Bonjour, mes enfants obscurs
Já comentei antes como acho estranho que justamente num país tropical com um sol de fritar ovo na cabeça as pessoas insistam em sair à rua sem proteção contra o sol. Muito embora as mini cartolas (mini top hats) não seja exatamente um barreira contra a radiação assassina, são lindas e vão bem com uma série de visuais – e, dependendo do seu grau de audácia e tipo de vínculo empregatício (concursados sortudos!), dá para arriscar até no trabalho. Vamos aos fatos:
Bonjour, mes enfants obscurs
Não, não é miragem. E por favor, não atirem pérolas (aos porcos?) do tipo “isso é coisa de poser” ou “isso é mainstream” ou ainda “você traiu o movimento, véio”. O World Goth Day é um movimento internacional, por assim dizer, que ocorre com a única finalidade que proporcionar aos góticos espalhados por aí um dia para exporem seu orgulho e identidade da forma como lhes couber. Muito embora haja críticas bastante estruturadas a essa iniciativa (como o questionamento se isso não seria uma forma barata de marketing para eventos), ela tem obtido bastante sucesso. Não há nenhum tipo de regra, apenas um convite para exercitar o seu goticismus (rssrsrsrsr) de forma mundialmente organizada uma vez ao ano.
O evento conta com um site e alguns bons conselhos de como não deixar o dia passar em branco (ironia?):
Domine uma rádio, ou só encha muito o saco deles até tocaram pelo menos UMA música gótica (Evanescence e Nightwish não estão incluídos).
Promova ou participe de algum evento gótico na sua cidade ou região.
Na falta de eventos ou amigos que partilhem seu gosto, vista-se a caráter e DANCE SOZINHO NA VOLTA DA CAMA.
E o que vocês, morceguinhos, sugerem?
Bonjour, mes enfants obscurs
João da Cruz e Souza foi uma daquelas figuras da literatura brasileira que, infelizmente para nós, é muito mais lembrado fora do que dentro do Brasil… Natural da nossa provinciana (e não pouco charmosa) Desterro, atual Florianópolis, ele nasceu negro, filho de escravos alforriados, para ser um dos precursores da poesia simbolista no Brasil. O espírito inquieto que pariu “Litania dos Pobres” e “Violões que Choram” terminou a vida como o bom poeta marginal que era: tuberculoso, pobre, amparado por amigos e longe da terra natal, que até hoje não o compreende muito bem… Onde já se viu um negrinho daqueles fazer versos, não? Mas não é que a velha Desterro resolveu se redimir?
Desde 2007, os restos mortais do poeta, até então sepultado no Rio de Janeiro, estavam na cidade. A construção do memorial se iniciou em outubro do ano passado e o projeto, além de espaço para receber os restos mortais de Cruz e Souza, possui ainda uma cafeteria e espaço para leitura. O Memorial foi inaugurado na quinta-feira passada, 06/05, e contou com algo inusitado: o translado dos restos mortais ficou a cargo de soldados da polícia trajados a caráter, o que, combinado com a arquitetura do Palácio Cruz e Souza (nos jardins do qual se localiza o dito Memorial), deu à cerimônia um caráter com algo de sobrenatural.
Ainda que tardiamente, é uma iniciativa louvável, que talvez denote algum interesse por parte das autoridades em finalmente valorizar de forma adequada o que Santa Catarina tem de culturalmente (e não turisticamente ou capitalisticamente, perdoem os neologismos) mais belo.
Será que este Memorial há de se tornar um lugar de peregrinações como a sepultura de Poe? Assim que estiver em Florianópolis, deitarei lá uma rosa e alguns versos para o Cisne Negro e, de quebra, trarei algumas fotos para este clube de leitores.
Au Revoir